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quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Por trás do Criacionismo da Terra Jovem: Ataque aos crocodilomorfos

Esta é uma versão melhorada e atualizada do primeiro artigo da série "Por trás do Criacionismo da Terra Jovem".  Minha visita recente ao Museu de Monte Alto - lugar onde acharam os fósseis do Montealtosuchus (o animal-alvo do texto) - me motivou a reescrever esse artigo de maneira mais detalhada.

A Bíblia diz claramente que o diabo é o pai da mentira. Desde o princípio, a humanidade têm sua história marcada por muitas mentiras, como a Bíblia nos revela... Como não mencionar a mentira que a serpente contou a Eva? Ou o momento em que Abraão mentiu ao Faraó dizendo que Sara não era sua mulher? Ou quando Jacó se disfarçou de seu irmão mais velho para alcançar a bênção de primogênito? Ou quando Pedro negou a Cristo três vezes? Esse pecado é muito corriqueiro, infelizmente.

A série "O que há por trás do Criacionismo da Terra Jovem" se propõe a desmascarar todas as mentiras contadas por criacionistas nas mídias sociais e meios de comunicação, que agem com o propósito de demonizar a teoria da evolução em prol do que eles acreditam que a Bíblia diz. Não é errado apresentar argumentos favoráveis a Palavra de Deus (muitíssimo pelo contrário, isso deve ser incentivado), entretanto devemos usar os argumentos corretos, e não mentir para provar a Bíblia. E muitos criacionistas têm feito isso. E é algo prejudicial a fé cristã, pois além de dar um péssimo exemplo de cristianismo, tais condutas mais afastam as pessoas de Deus do que as atrai. Como diz o criacionista e PhD em biologia evolutiva Leonard Brand, "Ainda que bem-intencionadas, algumas pessoas usam essa abordagem [as "mentiras do criacionismo"] com os jovens cristãos, muitos dos quais frequentam universidades públicas onde cientistas lhes apresentam um gigantesco conjunto de dados que destrói suas crenças criacionistas. Então, esses jovens descobrem que a evolução não é uma teoria estúpida, mas pode ser apoiada por uma esmagadora variedade de evidências. Nesse processo, muitos deles acabam perdendo a fé."

CONTRADIÇÕES A VISTA!

O artigo que iremos analisar - e desmascarar - a partir de agora foi publicado pelo criacionista Guilherme Born em 2009 pelo site "descontradizendo contradições" e traz uma contrargumentação aparentemente muito bem feita em torno de um suposto "elo perdido": o Montealtosuchus arrudacamposi (transicional entre crocodilos marinhos e crocodilotársios - ou popularmente falando, "crocodilos terrestres"); com o propósito de mostrar que o tal não foi nenhum elo perdido e que não teria vivido há milhões de anos, mas sim até recentemente, nos tempos diluvianos. Na verdade o artigo mostra o que acontece quando um simples técnico de informática resolve falar de paleontologia, sem conhecer nada do assunto... Nada contra os técnicos de informática, deixo claro.

Para entender a postagem, sugiro que leia esse artigo por completo: http://www.dc.golgota.org/criacao/+_um_elo_que_foi_perdido.html

A seguir, esse mesmo artigo será "destrinchado" e por meio de fatos e imagens também colocaremos a tona a realidade que se esconde nesse artigo. Parece que o artigo é sábio e revelador... Mas...


QUEM É O QUÊ?

Inicialmente, é mostrada a matéria original do anúncio da descoberta do fóssil, como sendo um transicional entre tipos primitivos de crocodilos e tipos modernos. Na realidade, o termo foi mal empregado na matéria de divulgação - o que não surpreende pois geralmente a mídia tende a exagerar esta ou aquela informação. O Montealtosuchus foi um intermediário entre "crocodilos terrestres", chamados de crocodilotarsos, e aligatores sulamericanos (como o Jacaretinga e o Jacaré-do-papo-amarelo), uma vez que em outras regiões, dessa época - 80 milhões de anos segundo o texto - já existiam no planeta crocodilos como o Sarcosuchus imperator (iremos falar dele mais adiante). Portanto, essa má explicação do artigo já renderia motivo pra alguma discussão, mas o Guilherme vai muito mais além em suas acusações disfarçadas de verdades.

Vamos começar a analisar o texto:

"Em primeiro lugar, o nome Montealtosuchus arrudacamposi é um nome secundário. Seu real nome é Baurusuchus salgadoensis. "

A partir daí já começam os erros. Montealtosuchus e Baurusuchus são animais totalmente diferentes, tanto em aspecto, quando em tamanho, ou seja, Baurusuchus não é o nome secundário do Montealtosuchus. Eles são apenas parentes próximos, nada além disso. Duvida? Faça a comparação por você mesmo, pelas fotos tiradas no Museu de Paleontologia de Monte Alto - SP:

Crânio de Montealtosuchus arrudacamposi

Crânio de Baurusuchus salgadoensis


O mesmo animal??

"Vou chama-lo de "Elinho""

Tenho que admitir que o Guilherme, apesar de tudo, é bem humorado e sarcástico. No texto inteiro ele chama o elo que quer atacar - que não sei se é o Montealtosuchus ou o Baurusuchus - de "elinho". Para melhor compreensão das mentiras expostas no texto, e por motivos de bom humor, usarei também o nome "elinho"...

"Os cientistas dizem que viveu 80 milhões de anos, outros dizem que 90 milhoes. Bem... 10 milhões é uma diferença pequena né? Claro que não. É muito tempo!! Os cientistas adoram brincar de milhões em milhões, como se fossem meses. O que na realidade indica, é que eles não sabem qual é a idade correta."

Outro erro do Guilherme. A divergência nas idades é simples de explicar: se deve ao motivo do Guilherme considerar o Montealtosuchus e o Baurusuchus seriam o mesmo animal, uma vez que um teria vivido há 80 milhões de anos e o segundo há 90 milhões de anos. Portanto, a divergência aí vai ser óbvia...

"Vejam que incrível!!! 11 esqueletinhos, que tinham pouco mais de 1 metro de comprimento, respondem como era o clima, vegetação e descreve as "catástrofes" ocorridas no cretáceo... Nossa!!!
Esse tipo de sensaciolanlismo chega a ser engraçado. O pior é que todo mundo acredita."

Por meio de estudos na rocha em que a criatura foi achada, fósseis-guias, tafonomia, etc, consegue-se determinar muitas coisas. Esses 11 esqueletos apresentam sinais de desgaste, situavam-se em pontos específicos... Todos esses dados são importantes para que se aprenda sobre o ambiente habitado por esses animais. Isso é o que um paleontólogo faz. Quer dizer, o Guilherme chama de "sensacionalista" algo que ele simplesmente desconhece, e muito.

"Detalhe, esses outros "crocodilos morfos" são chamados assim porque tem o crânio parecido com os de um crocodilo atual. Porém existem uns morfos muito parecidos com os atuais, em tamanho maior. Chamamos a época dos fósseis grandes de Gigantismo fóssil. A reportagem nos quer fazer pensar que existem outros crocodilos "intermediários", o que não existe. O que existe são animais com o crânio semelhante ao de um crocodilo atual. Isso não o torna um parente de crocodilo. Mais a frente veremos um deles."

O Guilherme não sabe o que é crocodilomorfo e coloca para o leitor uma informação extremamente mentirosa. Crocodilomorpha é um grupo que reúne os animais conhecidos vulgarmente como "crocodilos". Por isso, quando ele fala de "morfos" não se refere ao sentido real que o texto trata. Ao contrário do que o Guilherme fala, existem também vários intermediários, de várias fases evolutivas do crocodilo documentados no registro fóssil, como por exemplo o Archosaurus e o Protosuchus. Pelo visto o Guilherme - que ingenuamente acha que "crocodilo morfo" se refere a apenas um crânio igual ao do crocodilo atual - jamais ouviu falar nesses intermediários.

"media cerca de três metros de comprimento e pesava aproximadamente 400 kg - Os fósseis encontrados tinham um pouco acima de 1 metro de comprimento, mas obviamente, para sustentar o "elo", diz-se que tinha 3 ou mais, para mostrar que realmente eram parentes dos crocodilos atuais."

O Bauruschus media três metros e isso é fato. O que acontece é que novamente o Guilherme confunde Baurusuchus com Montealtosuchus, entretanto, alguns fósseis do Montealtosuchus que correspondem a peças isoladas apontam que o animal chegava na faixa dos dois metros de comprimento. Além disso, tamanho nada tem a ver com a questão ancestral-descendente, pois indivíduos de um mesmo gênero animal podem atingir dimensões diferentes. Abaixo, uma foto de um esqueleto reconstituído do Baurusuchus.



Vocês por acaso conhecem esta história? É a versão amenizada e evolucionista do Dilúvio Bíblico. Estranho que até os mamíferos se enterravam pelo jeito, a procura de umidade. Teoria ridícula.

Na verdade não é nada ridícula, pois essa explicação não foi uma mera especulação, mas veio do estudo da Tafonomia, ramo da paleontologia que estuda como os animais fósseis morreram, sem falar que a explicação da umidade é referente só ao crocodilomorfo do texto (repare que a publicação em vermelho, no artigo, fala: "essas espécies faziam buracos e se enterravam").

O animal tem caraterísticas intermediárias entre duas fases da evolução dos crocodilos. - Duas fases?? E quais são? Bem... então eles terão que explicar que fase é a do crocodilo exatamente igual ao atual, encontrado no Niger, com idade de 110 milhões de anos. Veremos logo abaixo.

Sim, duas fases e, se o Guilherme resolvesse fazer um estudo sério ao invés de tratar o artigo referido como "jogo de sete erros", saberia quais fases são essas. E já mencionamos as fases: a dos Crocodilotársios (grupo do Baurusuchus e do Montealtosuchus) e a dos Aligatores. O crocodilo gigante encontrado no Níger que ele menciona é o Sarcosuchus imperator, um parente próximo do Gavial, que não está relacionado evolutivamente com nenhum dos aligatores.

"As órbitas dos olhos deles têm posição lateral, como um animal terrestre, como um cavalo, uma vaca", afirma o cientista. "Este é um grande indicativo de que ele passava grande parte do tempo em terra. Já os olhos dos crocodilos atuais ficam em cima do crânio para se manter dentro da água." Sinceramente, este argumento foi ridículo. Então o que o tal de Vasconcellos nos diz dos mamíferos, que são terrestres e tem olhos frontais? Ele usou dois mamíferos com olhos laterias. Esta explicação é típica de um cientista sem experiência no seu trabalho, querendo fazer sensacionalismo para se auto-promover.
O olho lateral nos animais nada tem a ver com ser "terrestre" ou não. A diferenciação da vista lateral com a frontal é relacionada ao animal predador ou herbívoro. Nos animais que temos hoje, os predadores tem olhos frontais e os herbívoros, olhos laterais. Porém peixes também tem olhos laterais e isso não implica que o mesmo seja terrestre. A baleia Orca é predadora, mas tem olhos laterais. Não há uma regra, porém predomina-se esta: Olhos frontais - predador / olhos laterais - herbívoro.

O nosso amigo criacionista alega que a afirmação do "tal de Vasconcellos" é ridícula, e chega a atacar a moral do cientista, dizendo que o mesmo é inexperiente. Na verdade, o inexperiente nessa história é o Guilherme Born, pois ele não percebe que o autor da publicação do Montealtosuchus na verdade não quis dizer que toda vez que temos visão lateral é indicativo de animal terrestre. Ele apenas quis dizer que, uma vez que crocodilos possuem os olhos no alto da cabeça para se manter dentro da água, o Montealtosuchus não deveria ser aquático, já que possuía os olhos numa posição mais próxima a dos olhos de um mamífero terrestre do que de um jacaré. Ou seja, o Guilherme parece ser também ruim de interpretação de texto...

Essa é a análise inicial das mentiras ditas pelo criacionista Guilherme Born. Se parássemos por aqui já seria suficiente para dizer que o artigo tem bastantes erros. No entanto, esse criacionista consegue se superar em termos de farsa e desconhecimento, quando resolve por conta própria analisar o "elinho", com um conhecimento de paleontologia muitíssimo abaixo do necessário...

RAPTORES E CROCODILOS NO LIQUIDIFICADOR

Fazer uma interpretação de um fóssil pouco conhecido não é algo nada simples e qualquer descuido na análise pode nos levar a conclusões equivocadas (por isso existe revisão por pares de uma descoberta, por exemplo). Entretanto, fazer análise de fósseis usando apenas fotos pode em noventa por cento dos casos a nos levar a erros crassos, principalmente se a pessoa que está fazendo a análise tem um conhecimento pífio de paleontologia e é um mero técnico de informática... É o caso do Guilherme Born e o caso de uma das argumentações mais desonestas e absurdas decorrente dele.

Vamos acompanhar passo a passo da análise que ele fez. O objetivo? Apenas mostrar que os cientistas estão errados em dizer que o "elinho" é um tipo de crocodilo...

"Vemos que uma pequena análise já pôem em dúvida se este animal é um Elo ou não. Vamos analisar algumas imagens, comparando-as com os raptor e crocodilos atuais."

Inicialmente ele usou algumas ilustrações do Baurusuchus - e não do Montealtosuchus - para fazer a comparação com ilustrações de "Raptors" como ele mesmo fala. E detalhe, ilustrações que para o leigo lembrem um pouco a imagem que ele colocou. Abaixo, uma das imagens utilizadas do Baurusuchus e a imagem de Raptor usada por ele para a tal comparação:



Em seguida, Guilherme Born diz:

"Raptors, estrelas do filme Jurassic Park. Tinham também pernas longas, mas não andavam necessariamente com as 4 patas no chão. Tanto os raptors como o Elinho tinham tamanhos parecidos e suas patas seguiam uma proporção semelhante. Se o nosso elo vivia em clima seco e árido, como dizem os cientistas, então este também deveria andar apenas com as patas traseiras, evitando queimar suas pequenas patas no chão quente.
Reparem a posição da coluna vertebral do nosso Elo. as patas pequenas fazem com que o pescoço e a cabeça sejam forçados, para permitir a visão. Seria incoveniente que este "crocodilo" andasse com 4 patas.
As pernas traseiras são perfeitamente desenvolvidas para um andar bípede e não quadrúpede. Este "crocodilo" andava igual aos Raptors."

Para aparentar uma certa "honestidade" na pesquisa, o Guilherme também fez algumas comparações entre o crânio do Baurusuchus, do crocodilo Sarcosuchus e de um crânio que ele diz ser de raptor. Olhe as fotos abaixo:




Agora, vamos expor a fraude enorme que existe nisso tudo...

Primeiramente, como eu disse, ele usou fotos cuidadosamente selecionadas. Ele pegou algumas ilustrações do Baurusuchus que ficaram meio parecidas com a anatomia de um dinossauro. Em seguida, para convencer o leitor indiretamente, usou uma imagem totalmente errada e desatualizada de "raptors".

Abaixo, faço uma comparação ao mesmo estilo das comparações do Guilherme Born, entretanto, utilizando ilustrações cientificamente corretas dos crocodilomorfos do texto e de Dromeossaurídeos, o termo mais correto para "raptors"...

Baurusuchus




Montealtosuchus



E... "Raptors"!








Algumas das ilustrações acima mostram os "raptors" com penas, e isso não é uma mera especulação: alguns fósseis encontrados na China sugerem que os Dromeossaurídeos possuíssem penas muito parecida com a dos pássaros. Isso por si só já mostra que crocodilomorfos e dromeossaurídeos são criaturas muito distantes. Mesmo uma ilustração "correta" dos tais sem penas leva a indicar que são animais bastante diferentes.

Mas o que dizer dos crânios? A comparação que ele fez não está convincente? Na realidade ele usou de imagens cuidadosamente selecionadas para dar a falsa impressão de que o "elinho" é um raptor. Primeiramente, ele pegou uma imagem de pouca nitidez do crânio do Elinho, depois colocou para comparar com o crânio do crocodilo gigante Sarcossuco, que de fato não é um parente próximo deles, como expliquei lá atrás, e, por fim, pegou uma foto de uma réplica - mal feita - de um crânio de Tiranossauro Rex! Mas por quê ele teria feito isso??

Simples: porque os crânios reais dos animais na verdade NÃO SE PARECEM em quase nada! Quer ver?

Façamos a mesma comparação entre crânios. primeiro, os fósseis dos crocodilomorfos:











E os fósseis reais de "raptors"!



Como podemos ver, caso o Guilherme apresentasse as fotos acima, aí sim ele estaria sendo honesto, porém, qualquer um consegue aí ver a diferença nítida entre os dois animais e assim a teoria dele entraria em descrédito apenas com um olhar simples nas fotos acima. Claro, alguma pouca semelhança existe - mas não a ponto de dizer que são parentes próximos. Isso se deve ao fato dos dinossauros serem aparentados com os crocodilos. Apenas isso.

Por isso, podemos dizer que o Guilherme tentou descaracterizar o "elinho" jogando ele e os Dromeossaurídeos num "liquidificador imaginário...", que consegue atrair muito bem o leigo, mas não uma pessoa que sabe da mentira dessa afirmação. Pior: a pessoa que contou essa mentira ainda se diz cristã! Onde é que ser enganador e mentiroso é atributo de um verdadeiro cristão?

PALEONTOLOGIA: NOTA ZERO

Depois de usar um "liquidificador imaginário", Guilherme Born resolve mostrar todo seu conhecimento de estudo paleontológico ao analisar as escavações.  Vamos ver o que ele diz? Abaixo, um trecho do artigo com as fotos incluídas:

Os descobridores destes fósseis divulgaram as fotos das escavações.
Um tanto estranho é a profundidade onde estes se encontravam. Geralmente, fósseis com tal idade, são encontrados em camadas mais profundas. Porém este é extremamente raso, com cerca de 30 cm a 1 metro de profundidade apenas.


Vejam, na parte de baixo, o fóssil sendo cuidadosamente desenterrado, e a vegetação atrás. Como pôde um fóssil se conservar tão bem, numa profundidade tão pequena, durante 80 a 90 milhões de anos?


Agora que vimos toda a linha de raciocínio, podemos avaliar o que nosso amigo escreveu no artigo sobre o "elinho". Como coordenador na Grande São Paulo do Fossilis Associação Científica e Cultural, a minha nota, de zero a dez, é zero.

E não precisa ser nenhum intelectual em paleontologia para perceber onde o camarada errou. Isso porque o Guilherme não sabe que o terreno onde foi encontrado o animal é que data de 90 milhões de anos, ou seja, é um local que sofreu poucas mudanças de 90 milhões de anos para cá, um verdadeiro sítio paleontológico. E de fato, ele fica num nível inferior a um terreno normal. Em minha visita a Monte Alto, pude constatar isso muito bem, pois o sítio paleontológico de lá - que fica atrás do museu - realmente fica num nível bem mais baixo em relação a própria cidade de Monte Alto. Daí fica entendido o porquê do esqueleto estar enterrado num lugar tão "raso" e rodeado por vegetação.

E detalhe: as fotos são do Baurusuchus, e não do Montealtosuchus...

TAMANHO EXAGERADO?

Em seguida, o Guilherme resolve abordar dois pontos das descobertas: tamanho do fóssil e carapaça. Nos dois casos, o Guilherme afirma que os cientistas usaram a imaginação para suas afirmações. Vejamos o que ele diz sobre o tamanho do animal em questão:

Os descobridores e os cientistas evolucionistas que analisaram o fóssil, através de seus estudos [sic], evidenciaram [sic] que nosso elinho chegava de 3 a 4 metros de comprimento.
Como eles chegaram a esta conclusão?
Não se sabe. A única coisa que sabemos é que os ossos encontrados não passavam de pouco mais de 1 metro. Ou seja, com fósseis que, possivelmente eram adultos, tais cientistas, sem explicar satisfatóriamente como chegaram a tal conclusão, anunciam na mídia tal informação.

De novo, o Guilherme comete o erro de confundir tamanhos. Vou apenas copiar e colar a afirmação que fiz lá atrás:

Bauruschus media três metros e isso é fato. O que acontece é que novamente o Guilherme confunde Baurusuchus com Montealtosuchus, entretanto, alguns fósseis do Montealtosuchus que correspondem a peças isoladas apontam que o animal chegava na faixa dos dois metros de comprimento. Além disso, tamanho nada tem a ver com a questão ancestral-descendente, pois indivíduos de um mesmo gênero animal podem atingir dimensões diferentes.

O mais engraçado é que pela foto abaixo, do próprio artigo, dá pra ver claramente que o animal realmente tinha essa medida, e a legenda é bem clara: BAURSUCHUS SALGADOENSIS...



Sendo assim, os "estudos" indicam que nosso elinho tinha um grande tamanho. Claro, jogaram no limite de 4 metros, que é o máximo dos crocodilos atuais. Porém, onde estão os ossos do nosso elinho neste tamanho? hmmm... (grifo nosso)

Resposta: estão hoje no Museu de Paleontologia de Monte Alto - SP. Olha a foto que tirei do pé dele (se não me enganosó o pé dele sozinho era um pouco maior que minha mão):



NÃO FOI ACHADO... SERÁ?

Mas até aí o erro é desculpavel, pois foi oriundo da confusão com gêneros diferentes de crocodilomorfos. Mas o erro que veremos a seguir não tem desculpa: ou o autor não estudou direito ou está agindo desonestamente no presente artigo. Ele resolve falar sobre a reconstrução em vida do "elinho", e comete um erro seríssimo...

Os cientistas, chegando (não sei como) a conclusão de que se trata de um acestral "Elo Perdido" dos crocodilos, recriaram a aparencia externa dele. (...) Reparem suas costas e o restante de seu corpo. A representação ilustra um intermediário entre os dinos, tendo seu corpo coberto com o mesmo tipo de pele dos dinos, e os crocodilos, com a sua couraça (parte das costas) idêntica a de crocodilos e jacarés. Ora, nos fósseis não foram encontradas partes da pele ou couraça que permitisse que estes cientistas recriassem um modelo como este, uma mistura de dino com crocodilo. Ou seja, como eles chegaram a conclusão honesta de que o couro deste animal era como acima? Cabe lembrar que o detalhe que lembra o couro de crocodilo pertence a pele e não é formado por ossos.

Observe a parte que eu grifei acima. Bom, o Guilherme diz que não foi encontrada parte da pele ou couraça desse bicho, certo? Ora, se isso é verdade, então o que é isto que eu tirei foto nos fósseis do Montealtosuchus no Museu de Paleontologia de Monte Alto? Veja:



Isso mesmo, são fragmentos fossilizados da carapaça do Montealtosuchus! E não é uma montagem, observe no canto inferior esquerdo da foto o "céu da boca" do crânio do Montealtosuchus de cabeça para baixo. Abaixo, outra foto, mas dessa vez do crânio ORIGINAL encontrado de cabeça para baixo, com os fragmentos da carapaça logo acima:



É muito comum os osso se misturarem e se fragmentarem desse jeito com a erosão. A erosão das rochas consegue deformar bastante um fóssil. Por isso mesmo, foi feito um trabalho acadêmico onde construiu-se uma réplica dos fósseis de Montealtosuchus na posição exata onde deveriam estar. Veja o resultado e preste atenção no dorso do bicho:




Ou seja, não tem como não dizer que o Guilherme mentiu. Foram encontrados sim fragmentos da carapaça do Montealtosuchus e qualquer pessoa pode ir lá conferir no museu. O motivo da fossilização é porque, ao contrário do que o Guilherme diz, carapaça de certos tipos de crocodilo pode sim se fossilizar, pois são feitas de queratina, da mesma forma que uma carapaça de tartaruga. Abaixo, outros três exemplos de carapaça fossilizada:
Fóssil de Protosuchus com o couro do pescoço fossilizado
Fóssil de Armadilosuchus (da mesma família do "elinho") com a carapaça quase toda preservada

fragmentos de carapaça de tartaruga que tirei foto em Monte Alto
Ou seja, as reconstruções do Montealtosuchus em vida são feitas do animal com couro de crocodilo não por especulação, mas sim porque temos evidência disso. O Guilherme, no caso, criticou a seguinte foto e ainda colocou um comentário sarcástico nela: "que cara de cachorro"!



O engraçado é que eu vi pessoalmente a réplica da foto acima. A reconstrução é muito bem feita e não tem cara de cachorro... veja abaixo algumas fotos que eu tirei, num ângulo melhor:




A reconstrução acima estava ao lado dos fósseis no museu. Isso é ótimo, pois a gente pode comparar a reconstrução com o registro fóssil, e posso dizer que não estava fora daquilo que os fósseis representam. A réplica está no tamanho estimado que o animal atingia quando adulto. Entretanto, tinha outra réplica lá de Montealtosuchus no tamanho dos fósseis mais completos encontrados, que aliás, na minha opinião, é ainda mais condizente com os fósseis:



É... pra mim isso não tem cara de cachorro...

Para se fazer uma paleoarte - que é a restauração do animal em vida por meios artísticos - como as da foto acima, é feito todo um estudo detalhado nos fósseis. No caso de animais cujo registro fóssil é escasso e fragmentado, o que acontece bastante, a reconstrução do animal em vida é tomada em base de animais aparentados cujo registro é mais completo. Mas no caso tanto do Baurusuchus quanto do Montealtosuchus, o registro fóssil é tão bom que não precisou especular-se muito na aparência. O Guilherme, digamos, "escolheu os fósseis errados" para tecer uma crítica à reconstituição artística. E ainda mentiu descaradamente no tocante ao couro do animal.

PARECE MAS NÃO É

Uma outra prova de que o Guilherme Born não sabe NADA de paleontologia é a argumentação a seguir...

No texto, ele diz que, se o simples fato do crânio apenas "lembrar", ainda que remotamente, um crocodilo, poderíamos colocar o Baryonyx, um dinossauro de focinho alongado, como elo dos crocodilos se baseando só no crânio, pela "lógica evolucionista" (segundo ele). O Guilherme coloca a foto da reconstituição artística de uma Baryonyx e diz que é mais parecida ainda com o crocodilo do que com o "elinho", mas depois ao mostrar uma imagem do bicho de corpo todo, escreve "quanta diferença de um crocodilo"...

Em primeiro lugar, ele escreveu errado o nome científico do dinossauro: o nome científico correto é Baryonyx walkeri e não "Baryonix wakeri". Mas até aí tudo bem, errar um nome assim é até aceitável já que este não é um artigo acadêmico. O erro está em pegar uma ilustração simples e tentar convencer através dela que, se os cientistas encontrassem só o crânio do Baryonyx, eles diriam que o animal é um ancestral do crocodilo. E não é assim que as coisas funcionam.

O Baryonyx é um espinossaurídeo, um grupo de terópodes com crânio alongado, porém estreito e parecido remotamente com o de um crocodilo. Se um leigo encontrasse um crânio de Baryonyx, ou de Spinosaurus, ou Suchomimus, ou Irritator, etc, afirmaria que o bicho é ou um jacaré gigante ou parente do jacaré. No entanto, um cientista não trabalha com um simples "parece que é"... O crânio do Baryonyx, bem como outros fósseis de animais da mesma família, foram cuidadosamente estudados para uma classificação correta, e todos os detalhes indicam que o animal é um dinossauro terópode - o mesmo grupo onde os raptores e, em termos genéticos, as aves estão inclusos. Já o Baurusuchus, por exemplo, foi estudado por mais de 4 anos (informações do museu) e a conclusão foi de que o animal era um crocodilomorfo do grupo dos Crocodilotársios.

No entanto, o Guilherme ignorou todos os milhares de estudos que foram feitos em torno dos crânios e, além de fazer essa afirmação "sem noção", pegou ilustrações simplórias e fez o seu "ilusionismo". Veja as duas imagens que ele utilizou:




Com essas imagens acima, a brincadeira do Guilherme funciona bem com um leigo. Mas com imagens mais complexas do bicho e comparações dos crânios de crocodilo com o de espinossaurídeos não enganaria nem o mais desatento dos leitores. Veja abaixo:

Acima: a comparação do crânio do Baryonyx com o focinho fossilizado do
Spinosaurus e com um crânio de Crocodilo do Nilo





Eu pessoalmente já vi fósseis tanto de parentes do Baryonyx quanto de crocodilianos (já pude estudar um jacaré taxidermizado bem de perto), e posso garantir também que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Mesmo os dentes são diferentes...

EVOLUÇÃO MAL ENTENDIDA

Ao final do artigo, o nosso entrépido criacionista faz uma reflexão em torno da teoria da evolução, e novamente, ele fala coisas erradas aqui:

Darwin nos mostra que a evolução vem sempre do mais simples para o mais complexo, contrariando o criacionismo, que diz que o complexo precede o simples. Esse pensamento, do mais simples ao mais complexo, é o pensamento geral entre os evolucionistas.
Partindo daí, por que o Elinho teria se modificado para um crocodilo, sendo que ele era muito mais ágil, tinha uma estrutura muito melhor, em relação à estrutura corporal dos crocodilos, era predador, não necessitando se esconder na água, dentre tantos outros atributos a ele conferidas que são melhores do que os de um crocodilo?

A ideia de que evolução é sempre do simples ao complexo é uma ideia equivocada. Evolução é apenas, como Darwin preferia chamar, "descendência com modificação". Ou seja, apenas mudanças adaptativas ao longo das gerações, e não aumento de complexidade. Tanto é que a ameba tem o genoma maior que o do homem... Isso já desmonta todo o questionamento que o Guilherme faz em torno do "Elinho".  

O fato do crânio do Elinho ser parecido com o de um crocodilo classifica-o como crocodilomorfo, porém não quer dizer que ele é um elo perdido da evolução dos dinossauros para os crocodilos. De fato, este animal era um dinossauro e não um crocodilo.

Se você teve a paciência de ler esse artigo todo, já sabe que a frase acima está errada tanto quando ele diz que o animal era de fato um dinossauro, como quando que ele diz que evolucionistas dizem que ele é um "elo perdido da evolução do dinossauros para os crocodilos", pois nenhum evolucionista ou defensor da teoria da evolução diria isso. Os crocodilos não evoluíram dos dinossauros, mas sim ambos descendem de um mesmo ancestral - daí o fato de serem semelhantes - e muito menos o "Elinho" evoluiu para os crocodilos propriamente ditos: o Elinho é o ancestral dos jacarés americanos!

Uma questão que me intriga é como estes animais (dinossauros) desapareceram. A teoria evolucionista mais aceita é a do meteoro. Se o efeito que o meteoro trouxe for real, a vida na terra teria acabado em uns poucos anos, tanto na terra como na água, devido à poeira levantada pela queda do tal meteoro. A poeira levantou e cobriu o céu durante décadas ou até séculos. Sem sol, as plantas não realizam a fotossíntese e morrem. Sem plantas, os animais herbívoros morrem. Sem os herbívoros, os carnívoros passam a atacar outros carnívoros e sucessivamente, morrem. O plâncton, principal alimento na vida marinha, sem sol, morre, consequentemente, os peixes e outros animais marinhos.
E aí? onde foi parar o nosso Elo perdido? Como um animal pode evoluir, apartir de um animal morto?

Onde foi parar? A resposta está num detalhe importantíssimo que o Guilherme não colocou na descrição acima: o fato de que todo animal com mais de 2 metros de comprimento ter sido extinto apenas! O resto, que era de dimensões pequenas e conseguia se esconder da extinção - um jacaré ou crocodilo de pequeno porte conseguiria tal feito - sobreviveu à extinção dos dinossauros. O "Elinho" viveu antes da extinção dos dinossauros - enquanto ele viveu há 80 milhões de anos, a grande extinção ocorreu há 65 milhões de anos - , logo, quem viveu na época dessa extinção eram já os descendentes dele: os jacarés americanos. E nem todos sobreviveram à catástrofe... um descendente do "Elinho", o Deinosuchus, foi extinto junto com os dinossauros. Apenas jacarés e aligatores de pequeno porte sobreviveram e deram origem á variedade atual, como o jacaré-do-pantanal, o jacaré-do-papo-amarelo ou mesmo o Purussauro, um exemplar gigante posterior aos dinossauros mas que não chegou aos dias atuais.

CONCLUSÃO

Depois de todo esse show de desinformação que Guilherme Born dá, ele chega a desonesta conclusão de que "Nosso Elinho, o Baurusuchus salgadoensis não é nem de longe um "elo perdido" entre dinos e crocodilos. Ele é um dinossauro e não um intermediário. Entretanto, depois da nossa análise, qualquer um pode ver que na realidade o "Elinho" continua a ser um "elo perdido" válido para as transformações morfológicas dentro do grupo dos crocodilomorfos, onde representa muito bem a transição de crocodilotársios para os aligatores e jacarés atuais. E nem de longe nem o Montealtosuchus nem o Baurusuchus - que são animais bem diferentes - eram dinossauros, muito menos "raptors"...

A visita que eu fiz para o museu de Monte Alto na verdade nem foi para desmentir esse artigo, mas foi ocasional, fui a trabalho. Diante de tantas coisas que eu testemunhei de perto, não deixei de sentir muita indignação pela atitude desse cristão do texto. Não posso falar da pessoa dele, obviamente (só Deus é quem pode falar), mas pelo menos nesse artigo, posso dizer que ele colocou muita desinformação e, uma vez que publicou algo sem estudar direito antes, não agiu honestamente.

Jesus disse em João 8:32 "E conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará". Sendo assim, o cristão tem a incumbência de fazer com que as pessoas conheçam a verdade sobre o Criador, porém, será correto revelar a verdade de Deus usando mentiras? Pois é isso que o Guilherme Born visivelmente fez. Na verdade, esse artigo é um exemplo muito evidente de como muitos criacionistas agem. O propósito do artigo criacionista é desmascarar um fóssil de transição, para fazer com que o leitor aceite que a teoria da evolução é uma farsa, uma conspiração, e que Deus é o criador de todas as coisas (tanto é que esse artigo é do "Descontradizendo Contradições", que é Comunidade Cristã Gólgota). Mas agir assim não só é errado mas antibíblico, pois a pessoa que assim age "muda a verdade de Deus em mentira" (Romanos 1:25 parte a) e passa um mal testemunho de Cristo, pois as pessoas que entendem do assunto que o Guilherme Born abordou o verão como um mentiroso e assim será mais difícil da pessoa conhecer a verdade de Cristo.

Finalizo esse texto citando um trecho de um versículo que resume muito bem o cenário criacionista dos dias de hoje, infelizmente:

"porque meu povo se perde por falta de conhecimento;" - Oséias 4:6

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